9 de fevereiro de 2010

A banha da cobra

Há muitos anos, andava eu no Liceu de Gil Vicente, na Graça, todas as Terças feiras e Sábados, como morava na Sé, ao voltar para casa, desviava o meu percurso de modo a passar pela Feira da Ladra. E ficava muito tempo a ver os vendedores daquilo a que se dava o nome genérico de 'banha da cobra', a apregoar os seus produtos.
Ainda hoje, quando se fala de  de produtos duvidosos, anunciados de uma certa maneira, se diz que se trata da 'banha da cobra'.
O que deu origem a tal expressão era precisamente um (ou mais) feirantes que vendiam um produto miraculoso, supostamente um paliativo para todos os males e dores físicas. Formavam uma roda de curiosos à sua volta e, de facto, graças ao fluente e convincente discurso que usavam, muita gente adquiria o produto que anunciavam. Diziam eles que o produto era confeccionado exactamente com... banha de cobra.
Também havia os que vendiam um maravilhoso produto, que supostamente fortalecia o cabelo, e a que davam o nome de 'Juba de leão', os que vendiam líquidos que transformavam simples moedas de cobre em reluzentes moedas de prata, os que vendiam jogos de facas e tesouras que cortavam como estiletes e os que vendiam jogos de lençóis, isto tudo a preços sem concorrência no mercado tradicional. Tinham um estilo muito próprio e tenho de concordar que eram convincentes. E eu, uma simples criança, passava horas fascinado pelo discurso fluente desses vendedores de sonhos e pensava : 'quando for grande e tiver dinheiro, compro isto tudo !'.

Assisti hoje a uma declaração em directo, feita  ao 'povo', pelo nosso primeiro ministro. E, algumas horas decorridas, reparei que, nessa altura, do que me lembrei imediatamente, foi desses vendedores da banha da cobra, ídolos da minha juventude que conseguiam vender a sua mercadoria e viver à custa dos sonhadores, engajando os nossos sonhos com um discurso fluente e convincente. E perguntei a mim próprio até que ponto é que o 'povo' ainda acredita em charlatães, de discurso fluente, já desacreditados pela voz corrente e apodados com o título de 'vendedores de banha da cobra'.

-Depois de escrever estas linhas, fiz uma pesquisa no Google com 'banha da cobra'. E vejam o que descobri !
http://www.setubalnarede.pt/content/index.php?action=articlesDetailFo&rec=3404

Saliento uma das frases : 'Estou convencido que a grande maioria das pessoas não acreditava minimamente naquilo, mas inexplicavelmente compravam, compravam!!'

14 de fevereiro de 2009

I've told you so...

Estes "jornalistas" não param de me surpreender !
Ainda há poucos dias estava eu aqui a protestar e já me apareceu esta, digna de referência:

                                   in : Correio da Manhã, 14 de Fevereiro de 2009

Eu até nem ando à procura mas aparece-me cada uma !

7 de fevereiro de 2009

Francamente !!!

Que a língua Portuguesa anda maltratada, direi mesmo de rastos, a nível da sua utilização quotidiana e popular, que os "jornalistas" fazem figura de analfabetos, para quem fala 'normalmente' o Português, que o pretensiosismo desses "jornalistas" os faz utilizar palavras estranhas, esquisitas, estrangeirismos de que muitas vezes nem sabem o verdadeiro significado e ainda brasileirismos despropositados, isto é coisa que muitos de nós, defensores e apreciadores da nossa língua, (que é das poucas coisas dignas que nos resta, neste período de crise) já demos por isso.
Sabemos que  a TV tem sido o principal veículo propulsor dos ultrajes a que a língua tem sido sujeita.
E senão reparem nestes estrangeirismos que roçam a fronteira da debilidade mental e a que toda a gente já parece habituada :
'O João está morto' - Em português diz-se : 'O João morreu'. Mas, porque é que tem sido adoptada esta forma desastrada, de algum tempo a esta parte ? Ora pensem lá...
Pois é !!! 'John is dead' é a forma inglesa correcta... Mas em português, correctamente, diz-se 'O João morreu'. Salvo algumas excepções
Outra expressão, digna de atrasados mentais, também muito usada :
'Saia daqui, agora !
'Get out of here now !'
Now, em inglês poderá significar agora, mas também significa ou imediatamente.  E numa tradução, acho eu que se tem de contextualizar as palavras, e não, traduzir livremente. Mas a expressão já está implantada e vamos continuar a levar com ela, não só nas legendas de filmes traduzidos, como também em falas directas. 
Também deixou de haver acontecimentos notáveis, passaram a ser notórios o que não é nada parecido.
Impressiona-me que tenham deixado de haver coisas ou acontecimentos graves, é tudo 'gravoso' !!!

Comentários para quê ?

Deixou de se contratar e agora contratualiza-se !!!
E agora toda a gente coloca tudo !!!
Alguma das pessoas que ainda usa correctamente a língua portuguesa, já se apercebeu do ridículo de dizer, 'colocar gasolina no depósito', 'colocou-se em fuga',  e outras... É um brasileirismo, que foi adoptado sem hesitação pelos tais "jornalistas".
Porque é que já não se fazem perguntas ? Será errado ? Agora sempre se 'colocam questões' ! Acho grotesco, mas o mesmo não acham os "jornalistas" da nossa TV. Os nossos ministros, os nossos deputados !!!
Alguém me informe por favor o que está errado na expressão 'fazer uma pergunta'... 
Por outro lado, a ignorância destes tais "jornalistas" é tanta que chega a levar o texto para a forma que se pode considerar roçando os limites da... ordinarice.
E senão vejamos :
Já por diversas vezes tenho ouvido "jornalistas" utilizar a palavra chato e seus derivados.
'A população de ... anda chateada porque... (EU OUVI !!!)
Também já ouvi diversas vezes a palavra 'chato' no sentido de maçador, inconveniente, etc...
Ora chato é uma palavra que se refere ao piolho pubiano, coisa que de facto incomoda muito. Essa palavra ainda há uns anos era absolutamente imprópria de ser usada em público, considerada palavra grosseira. Completamente vedada a sua utilização diante de uma senhora. 
Pois estes "jornalistas" andam a usá-la livremente perante milhões de espectadores. No mínimo é deselegante. 

Comecei a escrever este texto porque se me deparou uma frase publicitária, destinada à camada jovem, e que reproduzo :

Obrigado por preencheres o nosso questionário. Preenche agora os teus dados
Por favor introduz o teu número de telemóvel. Enviaremos-te um código pessoal para confirmares a tua participação no questionário.

É assim que a asneira é propagada logo no momento em que o cidadão está em formação, num site apelativo aos mais jovens, em letra de forma, informação que é absorvida incondicional e inconscientemente, portanto pronta a ser repetida e divulgada. De notar que o site pertence à PT, grande empresa que bem poderia ter algum controlo sobre o que se publica sob o seu nome.
Entretanto deixei-me levar por toda a indignação que sinto pela degradação da nossa língua, que nos está a ser imposta pela comunicação social.  

Mas já o outro dizia que nada o admirava, desde que tinha visto um porco a andar de bicicleta e eu digo que já nada me admira depois de ter 'visto' a Senhora Doutora Manuela Moura Guedes, afirmar com a maior naturalidade que, à paciente, tinha sido colocada uma banda 'gástrica no estômago' !!!

16 de janeiro de 2009

ecologia ou oportunismo ?

Costumo ver o programa da Conceição Lino, na SIC, 'Nós por cá'
Tem um site, onde se podem rever os casos apresentados.

E encontrei este :



---> Localização de um vídeo do programa da Conceição Lino, ´Nós por cá' que foi retirado, em que uma pessoa pergunta o que havia de fazer a UM LITRO de diluente, que serviu para limpar uns pincéis, e que desejava deitar fora. Falou com diversos organismos, mas ninguém o conseguiu informar acerca da sua questão.<--- p="">
Aqui reproduzo o comentário que deixei no respectivo site :
(Apenas lá deixei o início pois os comentários têm um numero restrito de caracteres)

É muito simples de entender :
O óleo usado, provindo do parque automóvel, que tão pressurosamente recolhem, sem qualquer retribuição, rende muito dinheiro depois de transformado em bio-diesel, ou outros produtos. Não estão a fazer um favor em recolhê-lo mas sim a desenvolver um negócio de (muitos) milhões.
O cartão que as pessoas cuidadosamente separam e metem nos respectivos contentores, ATÉ TEM COTAÇÃO INTERNACIONAL e muita gente ainda vive da respectiva recolha. O cidadão 'separador' apenas ajuda mais um lobby que não devolve nada do que se lhe oferece, já separadinho e pronto a enfardar e exportar.
Do vidro, nem se fala. Antigamente as garrafas eram reutilizadas. Hoje em dia, em vez de se proceder à respectiva lavagem (o que, com a tecnologia moderna não constituiria qualquer risco), são descartadas. Depois, à custa da toda a poluição ambiental, fácil de imaginar, são derretidas, purificado o produto restante, descolorido e, a partir daí, fabricadas novas garrafas. Que alguém me prove que isto é mais ecológico do que a simples acção mecânica de lavar as garrafas vazias e reutilizá-las.
Muito mais se poderia dizer acerca desta 'hipocrisia ambiental' a que estamos a habituar a geração actual. Muitas sugestões poderia dar acerca do destino dos resíduos que diáriamente produzimos, mas não é aqui o local adequado.
Quanto ao nosso pintor, ele tem mesmo um problema pois o diluente e, sobretudo em tão pequena quantidade, não rende nada a ninguém e por isso mesmo, ninguém se preocupa em recolhê-lo.
Porque a ecologia, tal como nos está a ser apresentada, tem um lado obscuro. Muito obscuro mesmo...

6 de novembro de 2008

Passeio a Espanha e outras considerações

Fiz um passeio a Espanha...
Passeio que se tornou numa autêntica desintoxicação.

De facto, a primeira coisa que me chamou a atenção foi a maneira disciplinada como se circula nas estradas. Em 800 Km. de auto estrada (em que não fui assaltado por qualquer portagem), não vimos um único carro circulando a velocidade exagerada, mantendo-se sistemáticamente na faixa da direita. A seguir a uma ultrapassagem, todos os condutores que se tinham servido, licitamente, dessa parte da via, retomavam imediatamente a faixa onde de facto se deve circular. Para quem circula muito no IC 19, este facto por vezes produz uma sensação de 'falta aqui qualquer coisa'

Tive oportunidade de verificar que o combustível, de facto já se vende a um preço abaixo de um euro.
E até fotografei uma bomba espanhola e outra portuguesa, afim de registar os respectivos preços, na mesma data.



Quando estava a fotografar a bomba portuguesa, fui interpelado por um funcionário e pouco depois pelo gerente, acerca da razão do meu acto ! Respondi que a bomba era muito bonita...

Entrei em algumas 'bodegas', onde tive o prazer de me sentir no meio de seres humanos...
Nada de balcões despersonalizados pelo aço inox, havia baterias de presuntos e enchidos pendurados exalando aromas que se adicionavam aos aromas das madeiras criando uma intimidade que afinal é o que se deseja quando se confraterniza com as outras pessoas. E segundo me parece, não tem morrido muita gente por causa de tais 'libertinagens'. Sim... porque para a mentalidade que se tem infiltrado na sociedade portuguesa, são autênticos casos de libertinagem, por exemplo, ter um presunto pendurado, em saborosa exibição. Estou a exagerar ? Talvez não pois a geração que se encontra neste momento em evolução, que já nasceu sob o império desta legislação higienista, quando chegar ao estado adulto, não pode conceber que um chouriço 'nu' esteja pendurado, em gostosa exibição. Chegará o dia em que as pessoas se sentirão na obrigação de denunciar à ASAE, que nessa altura certamente já terá mudado de nome, (acarretando todas as despesas que isso implica), o insólito facto de num bar se cortar uma fatia de carne com determinada faca e usar a mesma faca para, depois de limpa, cortar uma porção de queijo. Ou de uma falta de higiene assombrosa, encostar os braços a um balcão em madeira (geralmente envernizada e escrupulosamente limpo).


Para quem não sabe, na nossa terra, tem de haver diversas facas, com cabos de cores diferenciadas, para com cada uma se cortar um tipo de alimentos ! Multas, é claro, para o não cumprimento.
Deixa-nos ficar a pensar que em Portugal, o uso da mesma faca nessas circunstâncias já teve em tempos resultados desastrosos. Os legisladores 'nuestros hermanos' parece que não estão de acordo. Claro que isso vai redundar num deficit na cobrança de multas e do IVA referente à venda de tais facas especiais, mas trata-se de um país rico (!), em que a economia não sente necessidade desse imposto extra que por cá actualmente, constitui uma fonte de recitas muito apreciada (pelos governantes, claro): as multas e as receitas do IVA sobre artigos obsoletos.
Também se privaram da receita referente às multas por causo dos fumadores e respectivas instalações.
A solução, claro, não passa por fazer disso uma fonte de receita :
Cada estabelecimento, decide se é de fumadores ou não fumadores. E afixa um letreiro a informar... Cada pessoa entra no estabelecimento que mais lhe agradar, se não que sentir-se intoxicada, à beira da morte, sujeita a doenças inimagináveis por causa do fumo dos cigarros então entra num estabelecimento para não fumadores... Fácil, não é ?

Outra coisa que se verificou é que apesar da densidade do parque automóvel da localidade em que circulei, a poucos Km. de Madrid, (até lhe chamei o Cacem de Madrid, APENAS pela proximidade da capital), o trânsito flue de maneira aceitável, mesmo nas horas de ponta.
E porquê ?
Neste Cacém de Portugal, as linhas de trânsito principais que atravessa a cidade, definidas nos gabinetes por técnicos credenciados, afluem todas, obrigatóriamente, ao mesmo sítio, sítio esse que não está preparado para esse fluxo excessivo de trânsito. A certas horas críticas, o trânsito fica completamente imóvel por períodos que chegam a durar mais de 10 minutos. Os semáforos, mudam de vermelho para verde mas não se pode avançar, porque à nossa frente está uma fila de carros à espera que o semáforo seguinte dê passagem. Quando esse semáforo passa a verde, esses carros não podem avançar porque à frente estão os que não podem entrar na principal avenida da terra, pois essa avenida não tem as mínimas condições de escoamento de trânsito e as posições que vão ficando livres, são ocupadas pelos carros que tentam entrar pela primeira entrada para a cidade que se encontra no IC 19. Porque entretanto o sinal verde, acende para essa fila de transito.
Quem conhece bem a terra, procura as ruas secundárias para chegar ao seu destino mas... em TODAS essas ruas secundárias que podiam resolver grande parte dessa confusão, foram colocados, a partir de certa altura, sinais de sentido proibido, ficando a servir apenas para mais alguns carros, que vão acabar por ser encaminhados para a dita confusão.
Também tenho de mencionar o facto de que o acesso ao novo tunel sob a ferrovia que atravessa o Cacém, ser feito obrigatóriamente atravez de 4 bairros residenciais, uma escola 14 curvas e ainda uma desnecessária e incrível rotunda de que nem vou falar por enquanto.
Este quadro de estupidez incompetente verifica-se de facto nesta terra. Chama-se POLIS...

Mas... eu estava a falar de Espanha !
Na cidade em que estive, as principais vias são largas avenidas, os sentidos proibidos são os indispensáveis e não vi um único condutor a circular indefinidamente pela faixa exterior das rotundas. O trânsito flui com normalidade e os peões não se atiram para baixo dos carros nas passadeiras.

Foi de facto uma lufada de ar fresco esta viagem a Espanha, onde ainda se verifica uma solução prática e inteligente dos problemas que afligem os habitantes, sem passar pela extorsão de fundos sob diversos pretextos.
Uma excelente viagem, sem nenhum problema, com gostosas refeições (por cá também as servem, mas a comida é diferente do nosso habitual) e um prazer renovado na condução.